|
O
israelense
Yochai
Benkler,
professor
de
Direito
na
Universidade
Yale,
Estados
Unidos,
conseguiu
se
tornar
talvez
o
mais
inovador
dos
pensadores
numa
área
cheia
de
pensamentos
inovadores.
Ao
analisar,
em
2002,
o
movimento
colaborativo
pela
internet
que
resultou
no
sistema
Linux,
uma
alternativa
ao
Windows,
da
Microsoft,
Benkler
propôs
uma
idéia
provocativa:
a
colaboração
na
internet
está
criando,
com
base
no
trabalho
voluntário,
um
novo
sistema
econômico,
mais
eficiente
que
o
capitalismo.
O
diagnóstico
de
Benkler
se
tornou
uma
referência
em
economia
digital
por
ter
agradado
tanto
aos
economistas
-
que
não
entendiam
muito
bem
o
fenômeno
colaborativo
-
quanto
aos
programadores,
que
tentavam
fazer
análises
dele
sem
uma
base
econômica
sólida.
Em
seus
trabalhos,
Benkler
tenta
explicar
as
razões
por
trás
do
sucesso
de
criações
da
internet,
que
vão
dos
softwares
livres,
como
o
Linux,
à
Wikipédia,
que
se
tornou
a
maior
enciclopédia
do
mundo.
No
recém-lançado
livro
The
Wealth
of
Networks:
How
Social
Production
Transforms
Markets
and
Freedom
(A
Força
das
Redes:
Como
a
Produção
Social
Transforma
os
Mercados
e
a
Liberdade,
em
tradução
livre),
Benkler
explora
as
novas
possibilidades
do
colaboracionismo
on-line.
Ele
concedeu
a
seguinte
entrevista
a
ÉPOCA.
|
YOCHAI
BENKLER
|
 |
|
INOVAÇÃO
Benkler
criou
parâmetros
para
o
estudo
dos
meios
digitais
|
Quem
ele
é
Israelense,
leciona
Direito
na
Universidade
Yale,
Estados
Unidos
O
que
ele
fez
Formado
pela
Universidade
de
Tel-Aviv
e
pós-graduado
em
Harvard,
lecionou
na
Universidade
de
Nova
York
e
foi
assistente
do
juiz
Stephen
Breyer,
da
Suprema
Corte
dos
EUA
O
que
ele
estuda
O
impacto
dos
modelos
colaborativos
de
produção
no
sistema
capitalista
|
O
que
leva
as
pessoas
a
se
envolver
em
trabalhos
colaborativos?
Yochai
Benkler
-
As
pessoas
agem
por
diversas
razões.
Algumas
porque
é
divertido
e
porque
esse
tipo
de
trabalho
é
uma
excelente
maneira
de
manter
contato
com
outras
pessoas.
Outras
por
razões
mais
pragmáticas,
que
variam
de
acordo
com
o
contexto.
No
desenvolvimento
do
software
livre,
por
exemplo,
algumas
empresas
pagam
colaboradores
para
depois
usar
o
conhecimento
adquirido
com
o
colaboracionismo.
Já
em
ambientes
culturais,
como
na
Wikipédia,
em
blogs
ou
sites
de
vídeos
colaborativos,
as
motivações
parecem
estar
relacionadas
ao
prazer,
às
relações
humanas,
ao
engajamento
político
e
ao
bem-estar
que
isso
pode
proporcionar.
ÉPOCA
-
Podemos
dizer
que
o
trabalho
colaborativo
constitui
o
principal
modo
de
produção
da
era
digital?
Benkler
-
Certamente
é
o
modo
de
produção
mais
empolgante
e
transformador.
Se
é
ou
não
o
'principal',
depende
do
que
esperamos
dele
e
da
própria
definição
de
'colaboração'.
Porém
é
fundamental
ter
em
mente
que
a
completa
substituição
de
mercados
e
governos
pelo
não-mercado
não
está
em
curso
nem
nunca
estará.
Mas
também
não
é
preciso
que
isso
ocorra
para
que
nós
possamos
entender
que
o
momento
que
vivemos
tem
uma
importância
enorme.
A
relevância
da
produção
comunitária
aumentou
e,
com
essa
relevância
aumentada,
o
sistema
inteiro,
que
antes
não
abrigava
esse
componente,
acabou
sendo
reorganizado.
|
'Empresas
dependentes
de
consumidores
passivos,
que
esperam
que
um
produto
seja
anunciado
e
vendido
para
eles
a
altos
preços,
têm
muito
com
que
se
preocupar'
|
ÉPOCA
-
As
grandes
empresas
devem
temer
esse
novo
modelo
de
produção?
Benkler
-
Algumas
sim,
outras
não.
Empresas
que
dependem
de
consumidores
passivos,
que
esperam
que
um
produto
seja
anunciado
e
vendido
para
eles
a
altos
preços,
têm
muito
com
que
se
preocupar.
Já
as
que
estão
aprendendo
a
facilitar
a
participação
dos
novos
e
ativos
consumidores-produtores,
chamados
até
de
'prosumidores',
estão
diante
de
um
mundo
de
oportunidades.
Talvez
o
Google
seja
o
melhor
exemplo
de
companhia
que
criou
e
continua
a
criar
ferramentas
para
usuários
ativos,
muito
além
de
uma
empresa
que
produz
bens
acabados
para
consumidores
passivos.
ÉPOCA
-
O
senhor
vê
tudo
isso
como
uma
mudança
no
capitalismo?
Benkler
-
Sim.
Mas
essa
não
é
a
primeira
mudança
no
capitalismo.
O
capitalismo
já
mudou
em
resposta
ao
crescente
custo
do
capital
e
também
em
resposta
à
instabilidade
social
provocada
pela
má
distribuição
de
renda
após
o
surgimento
da
socialdemocracia.
Suspeito
que
estejamos
em
um
momento
de
transição,
cujo
alcance
será
significativo.
Durante
o
crescimento
do
capitalismo,
a
noção
que
prevaleceu
foi
a
estrita
separação
entre
produção
e
consumo
e
a
clara
diferenciação
de
produtores
e
consumidores.
Quando
essas
fronteiras
se
tornam
confusas,
as
empresas
precisam
se
adaptar
a
uma
relação
mais
fluida
com
seus
co-criadores:
seus
usuários.
ÉPOCA
-
O
que
dizer
das
leis
de
propriedade
intelectual?
Elas
devem
ser
atualizadas
para
contemplar
as
novas
tecnologias
e
práticas
cada
vez
mais
comuns,
como
o
download
ilegal
de
música,
por
exemplo?
Benkler
-
No
último
quarto
de
século,
os
Estados
Unidos
e
o
restante
do
mundo
fizeram
uma
longa
caminhada
na
direção
errada
no
que
diz
respeito
a
copyright
e
patentes.
Essas
leis
foram
criadas
para
permitir
que
a
indústria
da
informação
capturasse
os
processos
de
inovação
com
a
intenção
de
maximizar
seus
ganhos.
Mas
a
irracionalidade
dessa
abordagem
já
é
amplamente
aceita
entre
economistas
e
crescente
também
entre
professores
de
Direito.
Os
profissionais
do
Direito
e
os
legisladores,
porém,
ainda
não
chegaram
lá.
De
todo
modo,
na
medida
em
que
aumentam
o
número
e
a
importância
das
empresas
que
entendem
os
efeitos
deletérios
da
proteção
excessiva
de
patentes
e
copyright
e
na
medida
em
que
as
organizações
da
sociedade
civil
estão
mais
atentas
à
questão,
uma
nova
coalizão
pode
se
formar.
Talvez
essa
coalizão
seja
mais
visível
no
emergente
movimento
pelo
acesso
global
ao
conhecimento.
Talvez
isso
possa
mudar
a
maré.
ÉPOCA
-
Em
que
sentido
isso
lembra
o
que
aconteceu
com
o
software
livre
ou
de
código
aberto?
Haverá
um
dia
a
música
colaborativa
de
'código
aberto'
ou
o
livro
colaborativo
de
'código
aberto'?
Benkler
-
Já
existe
a
música
de
'código
aberto'.
Sites
como
o
Garage
Band
e
outros
estão
encontrando
novos
caminhos
para
que
jovens
bandas
distribuam
suas
músicas,
encontrem
o
reconhecimento,
construam
sua
carreira
e,
em
alguns
casos,
assinem
contratos
com
gravadoras.
No
caso
da
música,
como
o
custo
do
investimento
em
uma
nova
canção
é
relativamente
baixo
e
vem
de
artistas
que
de
qualquer
modo
já
fazem
parte
do
sistema,
a
abordagem
de
'código
aberto'
é
plausível.
Para
os
livros,
depende
do
tipo.
Livros
que
podem
ser
divididos
em
contribuições
de
pequena
escala
já
estão
sendo
produzidos
dessa
forma.
Livros
de
receitas,
a
Wikipédia,
a
Enciclopédia
de
Filosofia
de
Stanford
são
modelos
de
produções
com
colaboração
aberta.
Mas
os
romances
ainda
vão
demorar
para
adotar
esse
modelo
ou,
no
final,
jamais
serão
escritos
dessa
forma.
Se
forem,
talvez
percam
a
integridade
artística
que
caracteriza
o
que
hoje
conhecemos
como
um
'romance'.
ÉPOCA
-
O
senhor
vê
alguma
similaridade
entre
a
troca
de
arquivos
pela
internet
e
a
produção
colaborativa?
Benkler
-
Em
princípio,
não.
Na
troca
de
arquivos
entre
os
usuários,
há
o
consumo
de
bens
acabados,
enquanto
a
produção
coletiva
é
genuinamente
um
modelo
alternativo
de
produção.
Em
todo
caso,
é
possível
pensar
na
troca
de
arquivos
como
uma
produção
coletiva
de
distribuição.
Podemos
considerar
assim
se
ela
é
realizada
seguindo
o
modelo
que
o
professor
de
Direito
Eben
Moglen
chamou
de
distribuição
anárquica.
Quando
as
pessoas
filtram
o
conteúdo
umas
das
outras,
ou
recomendam
coisas
a
amigos,
isso
pode
ser
considerado
uma
forma
de
produção
coletiva.
Mas,
como
muitas
vezes
o
que
acontece
é
a
mera
cópia
de
canções
populares,
esse
não
é
meu
exemplo
favorito
e
está
longe
de
ser
um
exemplo
perfeito.
ÉPOCA
-
Nos
últimos
anos,
leis
de
propriedade
intelectual
tornaram
possível
o
florescimento
da
indústria
cultural
e
do
software.
O
que
o
senhor
acha
que
vai
acontecer
se
as
leis
forem
mudadas?
Benkler
-
Bem,
uma
das
coisas
que
explico
em
meu
livro
é
que
uma
parcela
enorme
da
indústria
da
informação
não
está,
de
fato,
baseada
na
propriedade
intelectual.
É
verdade
que
os
agentes
do
mercado
possuem
copyrights
e
pedem
patentes,
mas,
para
a
maioria
das
indústrias
que
fazem
isso,
o
copyright
e
as
patentes
não
são
necessários
para
seu
sucesso.
A
maior
parte
dos
programadores
de
software
está
empregada
em
empresas
de
serviço,
não
na
área
de
'publicação',
que
depende
de
copyright.
A
IBM,
a
maior
detentora
de
patentes
nos
Estados
Unidos,
gerou
mais
receitas
com
os
serviços
relacionados
ao
Linux
que
com
royalties
de
patentes
e
licenciamento
de
produtos.
Hollywood
é
um
negócio
verdadeiramente
baseado
no
copyright.
A
indústria
fonográfica
também.
Mas
a
maior
parte
da
indústria
da
informação
não
é.
E
mesmo
vídeos
e
músicas
têm
modelos
alternativos.
Fotos:
divulgação
|