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Ganhos de eficiência |
Por Adriana Wilner , para o
Valor, de São Paulo
29/09/2008
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A
contabilidade
brasileira passa
por uma
reviravolta. Com
a Lei 11.638,
que, após sete
anos de
discussão, foi
aprovada em
dezembro de
2007, os
balanços das
companhias de
grande porte vão
mudar
radicalmente já
a partir do
fechamento de
2008. O objetivo
da lei é
modernizar as
demonstrações
financeiras, em
consonância com
as normas
internacionais (IFRS,
na sigla em
inglês), que
atualmente são
adotadas em mais
de 100 países, e
fazer com que
elas reflitam a
realidade
econômica das
empresas.
"Estamos diante
de uma revolução
na linguagem
corporativa",
afirma Fábio
Cajazeira, sócio
da
PricewaterhouseCoopers, líder de um grupo de 350
profissionais
(prestes a
dobrar) que
estão ajudando
as empresas a
implementar as
mudanças.
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Será
obrigatório, por
exemplo, apurar os
fluxos de caixa, um
indicador essencial
da liquidez das
companhias. Outro
demonstrativo
compulsório será a
Demonstração de
Valor Adicionado,
que dá um retrato da
riqueza gerada, de
que forma ela é
distribuída (entre
empregados, governo,
acionistas,
credores) e quanto
fica retido na
empresa.
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Conceitualmente, a
mudança mais
importante é a
adoção de um modelo
baseado no valor
justo dos ativos e
passivos. A
avaliação do valor
justo pode tornar-se
bastante complexa,
mas o objetivo é que
chegue o mais
próximo possível da
situação, de fato,
da empresa. "No
Brasil, tudo era
avaliado pelo custo
histórico", afirma
Sérgio Romani, sócio
da Ernst &
Young. Com
o uso do custo
histórico, as
demonstrações
contábeis ficavam
logo defasadas. Só
serviam para o
Fisco.
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"A
credibilidade da
contabilidade vai
aumentar muito",
afirma Eliseu
Martins, presidente
do conselho curador
da Fundação
Instituto de
Pesquisas Contábeis
(Fipecafi). Com
informações de
melhor qualidade,
espera-se que os
investidores
entendam melhor as
demonstrações
contábeis, o que
pode trazer reduções
no custo de capital.
"Vai ficar mais
fácil para o
investidor ler e
confiar nos balanços
das empresas", diz
Antonio Castro,
presidente da
Associação
Brasileira das
Companhias Abertas
(Abrasca). "As ações
das empresas vão se
valorizar", acredita
Antonio Carlos
Colângelo Luz,
diretor técnico da
Associação dos
Analistas e
Profissionais de
Investimento do
Mercado de Capitalis
(Apimec).
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Não é
só isso. Com uma
contabilidade mais
confiável, as
empresas têm
potencial para
expandir seu mercado
de atuação, ao
ganhar clientes e
fornecedores que
antes tinham receio
de estabelecer
relações comerciais,
por não terem um
retrato fiel do
parceiro. Ou então,
que o faziam, com
uma compensação no
preço. "Vai diminuir
não só o custo de
capital como também
o custo de
transações", afirma
Martins, que
recentemente foi
convidado para ser
diretor da Comissão
de Valores
Mobiliários (CVM).
Martins é também
vice-coordenador
técnico do Comitê de
Pronunciamentos
Contábeis (CPC),
entidade que está
auxiliando a CVM na
regulamentação da
nova lei.
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Outro
benefício será a
melhoria da gestão
interna das
empresas, acredita
Martins. Na Europa,
que liderou o
movimento de adoção
do IFRS, em 2005,
isso parece ter
acontecido. De
acordo com pesquisa
encomendada pela
União Européia ao
Institute of
Chartered
Accountants in
England and Wales
(ICAEW), 25% de 162
elaboradores de
balanços nas
empresas afirmaram
que, após apenas um
ano de adoção das
normas, havia mudado
a condução
estratégica como um
todo. Cerca de 60%
disseram usar o IFRS
para controles
internos.
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Mas
nem tudo é róseo no
cenário. As empresas
estão tendo que
arcar com custos
para implantar as
mudanças. Isso
significa contratar
consultores, treinar
os especialistas
internos e mudar
sistemas. Não há
ainda no Brasil uma
boa estimativa dessa
carga. Na União
Européia, segundo o
estudo da ICAEW, as
companhias com ações
em bolsa gastaram
0,31% do faturamento
para preparar o
primeiro IFRS e
0,05% para fazer os
subseqüentes, no
caso daquelas com
faturamento inferior
a 500 milhões de
euros. Quanto maior
o porte, menor o
percentual. Para
aquelas com
faturamento superior
a 5 bilhões de
euros, o custo para
o primeiro IFRS foi
de 0,05% do
faturamento e, para
os posteriores, de
0,008% do
faturamento.
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Apesar
de, para as companhias
abertas brasileiras, a
Lei 11.638 não ser
propriamente uma
novidade - elas já
seriam obrigadas, por
conta dos órgãos
reguladores, a seguir as
normas internacionais
nos seus balanços
consolidados a partir de
2010 - nem todas estão
se preparando
adequadamente. "Muitas
não estão dando nem
pelota", afirma Martins.
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Em
situação mais
delicada estão as
empresas limitadas,
que, apesar dos
benefícios
potenciais, nunca
tiveram que elaborar
balanços, nem
contratar auditores
independentes. A Lei
11.638 abarca todas
as empresas com
faturamento acima de
R$ 240 milhões ou
receita bruta
superior a R$ 300
milhões, sejam elas
fechadas ou abertas.
"Cerca de um quarto
das empresas
brasileiras vão
passar a ser
auditadas", diz
Charles Krieck,
sócio da
KPMG. Mas, para as limitadas, não será obrigatória a
publicação das
demonstrações -
decisão que gerou
bastante polêmica
quando a lei foi
aprovada.
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Nem
sempre as empresas
sairão em vantagem
com a adoção do
IFRS. Muitas
empresas podem
sofrer com
diminuição dos
ativos ou aumento
dos passivos. No
caso das
construtoras, pelo
IFRS, a receita só é
reconhecida na
entrega do prédio, e
não na venda, como
ocorre hoje. Outro
exemplo são empresas
que fazem muitas
operações de
leasing. Antes, as
despesas com leasing
só iam para a conta
de resultado. Agora,
os bens comprados
por sistema de
leasing farão parte
do ativo, e, em
contrapartida, a
dívida vai aparecer
no passivo. "Muitas
empresas estão
reclamando porque
vão mostrar um ativo
que não foi pago",
afirma Martins. Na
visão de Colângelo,
isso não trará
mudanças
significativas na
avaliação dos
analistas, pois já
se costuma dar um
desconto para
aquelas que abusam
do leasing.
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O
diretor da Apimec
não acredita que
haverá um disparate
tão grande nos
balanços, em relação
à situação atual.
"Talvez até tenha,
mas vão ser exceções
à regra". No
primeiro ano da
adoção do IFRS na
Europa, surgiram
algumas surpresas.
Entre as favoráveis,
o lucro da
Alcatel e da Telecom Itália mais que
dobrou. Entre as
desfavoráveis, o
resultado da
Deutsche Telekom
foi dois terços
inferior ao apurado
pelas normas
antigas, e a dívida
da Fiat
dobrou.
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No
caso de piorar a
relação entre ativos
e passivos, muitas
empresas podem ter
mais dificuldade em
conseguir linhas
acessíveis de
financiamento. Se
isso acontecer, a
expectativa de
redução no custo de
capital irá por água
abaixo. Isso porque
os empréstimos
costumam incluir
convenants,
compromissos
estabelecidos com
credores que
incluem, por
exemplo, uma relação
definida entre
ativos e passivos.
"Se essa relação
passar de 1,5 para
1,2, a empresa não
vai atender mais os
pré-requisitos do
financiamento e terá
que partir para a
renegociação",
avalia Krieck.
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Apesar das
polêmicas, a maior
parte dos
conhecedores de
contabilidade
prefere o modelo do
IFRS, baseado em
princípios. "O
modelo atual,
baseado em regras,
fica sempre
defasado. Sempre que
surge um novo
instrumento, é
necessária uma nova
regra", diz
Cajazeira. Mas como
avaliar o valor
justo de uma
floresta, por
exemplo? "Isso dá
muita margem a
erro", acredita
Romani, da Ernst &
Young. Os ativos e
passivos devem ser
trazidos a valor
presente. A que
taxa? Qual o custo
de oportunidade da
empresa? "Vai ser um
desafio aplicar
esses conceitos",
afirma Marco
Sanchez, da
BDO Trevisan.
Há muita
subjetividade nesses
cálculos. Mas não
quer dizer que o
mundo de regras
seja, ao contrário,
objetivo. "Criar
algo objetivo num
mundo subjetivo é
querer tapar o sol
com a peneira, fica
mais deformado
ainda", acredita
Martins. "O balanço
tem que ser a cara
da gestão da
empresa."
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Para
que os bons
prognósticos se
confirmem, no
entanto, são
necessários alguns
pré-requisitos. Em
primeiro lugar, as
informações precisam
ser divulgadas de
tal forma que quem
as leia entenda os
pressupostos do
julgamento da
empresa e possa
questioná-los. Em
segundo lugar, é
preciso que, em caso
de desvios, quem fez
e aprovou o balanço
seja punido. Em
terceiro lugar, os
profissionais
brasileiros estão
acostumados a seguir
regrinhas. "Vai ser
um desafio muito
grande preparar os
especialistas em
contabilidade",
afirma Krieck, da
KPMG. Por fim, a
capacidade de
julgamento depende
da conduta moral dos
envolvidos: empresa,
auditores, analistas
e investidores. "O
mundo financeiro
está baseado na
confiança entre as
partes", diz
Martins. Conforme se
pode verificar no
exemplo
norte-americano, há
momentos em que esta
confiança
desaparece.
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