| Gustavo Lourenção/Valor |
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| Simon Guilham, vice-presidente de comunicação da Vivendi: "maior concorrência vai contribuir para melhores preços ao consumidor brasileiro" |
Uma certa mágoa, misturada a um clima de suspense, paira no sexto andar de um prédio a poucos metros do Arco do Triunfo, em Paris. Ali, na avenida Friedland, fica a sede do grupo francês de telecomunicações e entretenimento Vivendi, que assinou, em setembro, um acordo para a compra da operadora brasileira GVT. Isso antes que a Telefônica fizesse, no mês passado, uma oferta hostil superior à iniciativa dos franceses, criando um mistério em relação ao desfecho do negócio.
Fontes ligadas à empresa francesa dizem que a acolhida de uma nova companhia capaz de aumentar a concorrência no setor poderia ter sido melhor. A Vivendi tem muitos planos para desenvolver as atividades da GVT, ao passo que a Telefônica, afirmam, quer "engolir" a operadora.
Executivos que acompanham as negociações se disseram surpresos com o que consideram uma indiferença das autoridades brasileiras em relação ao caso e, principalmente, no que diz respeito à investida da Telefônica, cuja oferta de compra da GVT é vista como uma iniciativa "anticompetitiva". Também incompreensível para essas pessoas foi a postura da Oi de apoiar a oferta dos espanhóis.
Simon Guilham, vice-presidente de comunicação da Vivendi, se recusa a comentar essas observações, mas diz que o grupo tem muitos planos para a operadora brasileira. "A Vivendi poderá acelerar o crescimento da GVT com novos investimentos e tecnologias, incluindo as de internet em banda larga, já desenvolvidas por nossas filiais. A maior concorrência vai contribuir para melhores preços ao consumidor brasileiro", afirma o executivo ao Valor. Segundo ele, a Vivendi poderá também desenvolver uma TV paga com a GVT, nos moldes da filial Canal +, na França.
O grupo francês espera a resposta da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) em relação à proposta de compra, que deve ser anunciada este mês. A empresa informa apenas que "está analisando diferentes possibilidades" e não comenta quais elas seriam. "A compra da GVT corresponde perfeitamente à estratégia da Vivendi de investir em mercados em crescimento. O Brasil é um país estratégico para a Vivendi e ficamos apaixonados pela GVT", diz Gilham.
Vivendi é um nome pouco conhecido do grande público, sobretudo no exterior, mas famoso entre investidores e analistas financeiros. A companhia, que registrou um faturamento de € 25,4 bilhões no ano passado e possui 43,2 mil empregados em 77 países, integra o índice CAC 40 da bolsa de Paris, das maiores capitalizações. O grupo francês afirma ser o líder mundial nos mercados de videogame e música, com suas filiais Activision Blizzard (criada com a fusão entre Vivendi Games e Activision, em julho de 2008) e Universal Music.
A companhia também é a número dois nas telecomunicações da França, com a operadora SFR, que faturou 11,5 bilhões em 2008 e reúne 19,7 milhões de clientes de telefonia celular e quase 4 milhões de usuários de internet em banda larga no país, além de ser a número um em TV paga, com o Canal +. O grupo controla também a Maroc Télécom, que é líder de telecomunicações no Marrocos e está expandindo suas atividades em outros países africanos, como Burkina Faso e Gabão.
É muito provável que os 15 milhões de consumidores que compraram o videogame "Guitar Hero" ou os 12 milhões de assinantes do "World of Warcraft", o maior jogo on-line no mundo, nunca tenham ouvido falar na Vivendi, mas para a direção da empresa isso está longe de representar um problema. O objetivo, afirma Guilham, não é tornar a marca da holding forte em detrimento das filiais. Por isso, o comando das empresas do grupo é descentralizado e tem muita autonomia. "A Vivendi é uma marca empresarial. É importante que ela seja conhecida pelos líderes de opinião e pela comunidade financeira, não pelo consumidor", diz Simon.
Segundo o executivo, isso representa até um fator de força para o grupo. "Os negócios da Activision Blizzard se desenvolvem muito bem atualmente. Já as atividades da Universal estão mais lentas por causa da diminuição da venda de discos e da pirataria. Se todas as empresas se chamassem Vivendi, diriam que o grupo não vai bem por causa da divisão de música. Mas a Vivendi vai bem com o setor de videogames", afirma.
O grupo Vivendi foi criado por meio de inúmeras fusões e aquisições que sempre fizeram parte da estratégia da empresa. Sua atuação nas áreas de comunicação e entretenimento é relativamente recente se comparada a sua longa história, que começou no século 19. Inicialmente, ela se chamava "Compagnie Générale des Eaux" (Companhia Geral das Águas ou CGE, na sigla em francês) e foi criada, por decreto imperial, para fornecer água à cidade de Lyon. Nos anos 80, a CGE, líder mundial do setor, ampliou suas atividades para as áreas de tratamento de lixo, energia e transportes e também participou da criação da TV paga Canal +.
Em meados dos anos 90, sob a presidência do hoje controvertido Jean-Marie Messier, a companhia se voltou para as novas tecnologias e atividades de mídia, sem abandonar o setor de infraestrutura. Messier, que responde atualmente a processos movidos por acionistas na Justiça dos Estados Unidos e da França por fraude contábil entre 2000 e 2002, decidiu mudar, em 1998, o nome da empresa para Vivendi sob o argumento de que era difícil para os estrangeiros pronunciarem Compagnie Générale des Eaux.
A mudança não foi apenas superficial. Messier passou a fazer investimentos em um ritmo frenético em empresas de tecnologia e mídia. Com essa estratégia de conquistas por todos os lados, a Vivendi chegou a ter o número inacreditável de 6,6 mil filiais. O grupo possuía dois polos: comunicação e "ambiente", com atividades nos setores de água e energia, entre outros.
A derrocada, impulsionada pela explosão da bolha de internet e a deterioração da situação econômica mundial, não demorou muito. Em 2002, o grupo estava à beira da falência, com uma dívida de € 36 bilhões, e Messier foi obrigado a pedir demissão. A Vivendi, sob a nova direção de Jean-Bernard Lévy, passou por um grande processo de reestruturação. O novo comando vendeu inúmeros ativos, se desfez do polo "ambiente", que se transformou no grupo Veolia, e decidiu se concentrar em poucos setores. As dificuldades financeiras duraram até 2004, quando a Vivendi voltou a ser rentável. Hoje, são apenas cinco filiais, além dos 20% que a Vivendi detém no conglomerado de mídia americano NBC Universal.
"Todos pensavam que iríamos manter as atividades de água e energia e vender as demais. Fizemos exatamente o contrário porque acreditamos que as novas tecnologias digitais representam o futuro", diz Guilham.
Agora, com o grupo bem mais enxuto, também é mais fácil para a equipe de direção em volta de Jean-Bernard Lévy tomar decisões. "O dossiê sobre o Brasil foi montado rapidamente", diz Guilham. Dos tempos da estratégia de Messier, uma coisa restou: o forte interesse da Vivendi pelo mercado brasileiro.