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Estratégia: Para franceses, que disputam a GVT com a Telefônica, acolhida no país poderia ter sido mais calorosa

Na Vivendi, clima é de suspense e surpresa


    Daniela Fernandes, para o Valor, de Paris
    03/11/2009

Gustavo Lourenção/Valor
Foto Destaque
Simon Guilham, vice-presidente de comunicação da Vivendi: "maior concorrência vai contribuir para melhores preços ao consumidor brasileiro"

Uma certa mágoa, misturada a um clima de suspense, paira no sexto andar de um prédio a poucos metros do Arco do Triunfo, em Paris. Ali, na avenida Friedland, fica a sede do grupo francês de telecomunicações e entretenimento Vivendi, que assinou, em setembro, um acordo para a compra da operadora brasileira GVT. Isso antes que a Telefônica fizesse, no mês passado, uma oferta hostil superior à iniciativa dos franceses, criando um mistério em relação ao desfecho do negócio.

Fontes ligadas à empresa francesa dizem que a acolhida de uma nova companhia capaz de aumentar a concorrência no setor poderia ter sido melhor. A Vivendi tem muitos planos para desenvolver as atividades da GVT, ao passo que a Telefônica, afirmam, quer "engolir" a operadora.

Executivos que acompanham as negociações se disseram surpresos com o que consideram uma indiferença das autoridades brasileiras em relação ao caso e, principalmente, no que diz respeito à investida da Telefônica, cuja oferta de compra da GVT é vista como uma iniciativa "anticompetitiva". Também incompreensível para essas pessoas foi a postura da Oi de apoiar a oferta dos espanhóis.

Simon Guilham, vice-presidente de comunicação da Vivendi, se recusa a comentar essas observações, mas diz que o grupo tem muitos planos para a operadora brasileira. "A Vivendi poderá acelerar o crescimento da GVT com novos investimentos e tecnologias, incluindo as de internet em banda larga, já desenvolvidas por nossas filiais. A maior concorrência vai contribuir para melhores preços ao consumidor brasileiro", afirma o executivo ao Valor. Segundo ele, a Vivendi poderá também desenvolver uma TV paga com a GVT, nos moldes da filial Canal +, na França.

O grupo francês espera a resposta da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) em relação à proposta de compra, que deve ser anunciada este mês. A empresa informa apenas que "está analisando diferentes possibilidades" e não comenta quais elas seriam. "A compra da GVT corresponde perfeitamente à estratégia da Vivendi de investir em mercados em crescimento. O Brasil é um país estratégico para a Vivendi e ficamos apaixonados pela GVT", diz Gilham.

Vivendi é um nome pouco conhecido do grande público, sobretudo no exterior, mas famoso entre investidores e analistas financeiros. A companhia, que registrou um faturamento de € 25,4 bilhões no ano passado e possui 43,2 mil empregados em 77 países, integra o índice CAC 40 da bolsa de Paris, das maiores capitalizações. O grupo francês afirma ser o líder mundial nos mercados de videogame e música, com suas filiais Activision Blizzard (criada com a fusão entre Vivendi Games e Activision, em julho de 2008) e Universal Music.

A companhia também é a número dois nas telecomunicações da França, com a operadora SFR, que faturou 11,5 bilhões em 2008 e reúne 19,7 milhões de clientes de telefonia celular e quase 4 milhões de usuários de internet em banda larga no país, além de ser a número um em TV paga, com o Canal +. O grupo controla também a Maroc Télécom, que é líder de telecomunicações no Marrocos e está expandindo suas atividades em outros países africanos, como Burkina Faso e Gabão.

É muito provável que os 15 milhões de consumidores que compraram o videogame "Guitar Hero" ou os 12 milhões de assinantes do "World of Warcraft", o maior jogo on-line no mundo, nunca tenham ouvido falar na Vivendi, mas para a direção da empresa isso está longe de representar um problema. O objetivo, afirma Guilham, não é tornar a marca da holding forte em detrimento das filiais. Por isso, o comando das empresas do grupo é descentralizado e tem muita autonomia. "A Vivendi é uma marca empresarial. É importante que ela seja conhecida pelos líderes de opinião e pela comunidade financeira, não pelo consumidor", diz Simon.

Segundo o executivo, isso representa até um fator de força para o grupo. "Os negócios da Activision Blizzard se desenvolvem muito bem atualmente. Já as atividades da Universal estão mais lentas por causa da diminuição da venda de discos e da pirataria. Se todas as empresas se chamassem Vivendi, diriam que o grupo não vai bem por causa da divisão de música. Mas a Vivendi vai bem com o setor de videogames", afirma.

O grupo Vivendi foi criado por meio de inúmeras fusões e aquisições que sempre fizeram parte da estratégia da empresa. Sua atuação nas áreas de comunicação e entretenimento é relativamente recente se comparada a sua longa história, que começou no século 19. Inicialmente, ela se chamava "Compagnie Générale des Eaux" (Companhia Geral das Águas ou CGE, na sigla em francês) e foi criada, por decreto imperial, para fornecer água à cidade de Lyon. Nos anos 80, a CGE, líder mundial do setor, ampliou suas atividades para as áreas de tratamento de lixo, energia e transportes e também participou da criação da TV paga Canal +.

Em meados dos anos 90, sob a presidência do hoje controvertido Jean-Marie Messier, a companhia se voltou para as novas tecnologias e atividades de mídia, sem abandonar o setor de infraestrutura. Messier, que responde atualmente a processos movidos por acionistas na Justiça dos Estados Unidos e da França por fraude contábil entre 2000 e 2002, decidiu mudar, em 1998, o nome da empresa para Vivendi sob o argumento de que era difícil para os estrangeiros pronunciarem Compagnie Générale des Eaux.

A mudança não foi apenas superficial. Messier passou a fazer investimentos em um ritmo frenético em empresas de tecnologia e mídia. Com essa estratégia de conquistas por todos os lados, a Vivendi chegou a ter o número inacreditável de 6,6 mil filiais. O grupo possuía dois polos: comunicação e "ambiente", com atividades nos setores de água e energia, entre outros.

A derrocada, impulsionada pela explosão da bolha de internet e a deterioração da situação econômica mundial, não demorou muito. Em 2002, o grupo estava à beira da falência, com uma dívida de € 36 bilhões, e Messier foi obrigado a pedir demissão. A Vivendi, sob a nova direção de Jean-Bernard Lévy, passou por um grande processo de reestruturação. O novo comando vendeu inúmeros ativos, se desfez do polo "ambiente", que se transformou no grupo Veolia, e decidiu se concentrar em poucos setores. As dificuldades financeiras duraram até 2004, quando a Vivendi voltou a ser rentável. Hoje, são apenas cinco filiais, além dos 20% que a Vivendi detém no conglomerado de mídia americano NBC Universal.

"Todos pensavam que iríamos manter as atividades de água e energia e vender as demais. Fizemos exatamente o contrário porque acreditamos que as novas tecnologias digitais representam o futuro", diz Guilham.

Agora, com o grupo bem mais enxuto, também é mais fácil para a equipe de direção em volta de Jean-Bernard Lévy tomar decisões. "O dossiê sobre o Brasil foi montado rapidamente", diz Guilham. Dos tempos da estratégia de Messier, uma coisa restou: o forte interesse da Vivendi pelo mercado brasileiro.

 

Receita semestral do grupo cresceu 17%

 

O faturamento do grupo francês Vivendi no primeiro semestre, de € 13,2 bilhões, registra aumento de 17% na comparação com o mesmo período do ano passado. O lucro, de € 1,47 bilhão, aumentou 0,9% na comparação anual e 8,1% em relação ao trimestre anterior.

É certo que os números positivos refletem a integração dos resultados de empresas adquiridas, como a operadora francesa Neuf Cegetel e a Activision Blizzard, de videogames. Mas a Vivendi tem sofrido relativamente menos os efeitos da crise econômica, diz o vice-presidente de comunicação do grupo, Simon Gillham.

"Mesmo com a crise, as pessoas não cancelam a assinatura de telefone. Se elas ficam mais em casa porque saem menos de férias ou para passear, por exemplo, elas assistem TV e deixam seus filhos jogar videogames", afirma Gillham.

Além disso, 70% do faturamento mundial da Vivendi se refere às assinaturas de clientes, tanto de telefone como TV paga ou jogos na internet, o que representa uma clientela normalmente estável. No dia 12 de novembro, o grupo vai anunciar os resultados do terceiro trimestre. Segundo analistas de mercado aguardam uma confirmação das previsões de forte crescimento do resultado operacional em 2009.

A gestão do ex-presidente Jean-Marie Messier, obrigado a pedir demissão em 2002, ainda deixou, no entanto, alguns problemas para a nova direção. No mês passado teve início o julgamento de uma ação coletiva movida por acionistas na Justiça americana. Eles afirmam ter sido lesados por fraudes nos balanços. entre 2000 e 2002. Na avaliação da imprensa francesa, isso poderá custar algumas centenas de milhões de dólares ao grupo, que integra a lista de acusados, como o ex-presidente Messier. (DF)

 

Assembleia da GVT vota hoje dispensa da pílula


    Graziella Valenti, de São Paulo
    03/11/2009

Os acionistas da GVT devem votar hoje, em assembleia, um tema muito importante para qualquer um dos interessados em comprar a companhia, seja a Vivendi ou a Telefônica. Os acionistas decidirão pela dispensa ou não da pílula de veneno prevista em estatuto. Na prática, essa cláusula obriga aquele que comprar 15% das ações da companhia a lançar uma oferta a todos os acionistas com um prêmio muitíssimo elevado, o que inviabiliza a investida economicamente.

Em 8 de setembro, a Vivendi ofereceu R$ 5,4 bilhões pela companhia, após uma negociação amigável com os principais acionistas, fundadores do negócio. Porém, exato um mês depois, o grupo espanhol atravessou o caminho e lançou uma oferta hostil de R$ 6,2 bilhões pela empresa.

O desfecho dessa disputa permanece obscuro. Para manter-se na concorrência, a Vivendi precisa elevar sua oferta em, no mínimo, 5% frente ao lance da rival. Ainda não se sabe se essa será a opção. De qualquer forma, ainda que faça uma nova proposta, a companhia francesa manterá o suspense até o último momento. O leilão da oferta da Telefônica será em 19 de novembro. A concretização do negócio nesta data, contudo, depende de uma autorização prévia da Anatel, agência reguladora do setor.

Ainda que desista, a Vivendi pode exercer um contrato que possui com os sócios fundadores da GVT para comprar 20% da empresa - e, em seguida, vender à Telefônica e fazer algum dinheiro com o suor da briga.

 
Fonte: Valor Econômico