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Infraestrutura: Demanda aquecida e requisitos técnicos dificultam tarefa de encontrar local adequado

No Brasil, já faltam áreas para instalar centros de dados


    Cibelle Bouças e Gustavo Brigatto, de São Paulo
    04/11/2009

Claudio Belli/Valor
Foto Destaque
Carlos Eduardo Kuhl, diretor da InterSystems: poucos prédios suportam uma tonelada por metro quadrado

Carlos Eduardo Kuhl está pronto para arrumar as malas, mas ainda não tem destino certo. A procura pelo lugar dos seus sonhos já envolveu visitas a dezenas de locais diferentes, sem que nenhum o convencesse até agora. Mas Kuhl não está atrás de um resort exclusivo ou de uma praia deserta. Responsável pelas operações latino-americanas da InterSystems, uma empresa de software, sua dificuldade é encontrar o imóvel adequado para instalar, em São Paulo, o primeiro centro de dados da companhia no Brasil.

"Poucos prédios têm estruturas capazes de suportar uma tonelada por metro quadrado", explica o executivo. A oferta de áreas é tão escassa que a previsão de Kuhl é que a procura vá se estender até março de 2010.

A falta de prédios adequados é reflexo direto da explosão de demanda pelos centros de dados ou "data centers". É esse o nome dados às grandes salas refrigeradas que funcionam como um celeiro de servidores, os computadores de grande porte onde são armazenadas informações e programas de empresas de todos os tamanhos e áreas de atuação.

Uma pesquisa da consultoria IDC mostra que esse mercado, estimado em R$ 13 bilhões anuais, cresceu quase 10% em 2008, com projeção de se expandir dois dígitos ao ano entre este ano e 2013, informa Reinaldo Roveri, gerente de análise de mercado da IDC.

Movimentos recentes mostram como a área está aquecida. Somando apenas quatro projetos de centros de dados em andamento - da Petrobras, do Bradesco, do UOL e da Sistel - o orçamento dedicado a essas instalações chega à cifra de R$ 565 milhões.

O crescente interesse das empresas em investir em centros de dados obedece a duas vertentes básicas: a primeira é atender a necessidades internas. O processo de informatização e o aumento das transações eletrônicas entre as empresas e seus fornecedores ou clientes tornou a construção de mais centros um imperativo, principalmente entre as grandes companhias.

A segunda vertente é a das empresas que estão investindo em centros de dados para oferecer serviços terceirizados: o cliente usa as instalações do fornecedor em vez de construir sua própria infraestrutura. A tendência fica cada vez mais forte com a chamada computação em nuvem. Em vez de armazenar software e arquivos no computador do usuário, tudo fica disponível via internet - a "nuvem" do enunciado.

Um levantamento feito pela IT Data com mil empresas de médio e grande portes revela que 39% delas já terceirizam total ou parcialmente seus centros de dados. Álvaro Leal, consultor da IT Data, diz que existe um enorme potencial de crescimento para esses serviços.

A InterSystems é um exemplo disso. A empresa, que oferece software de banco de dados e sistemas para a área de saúde, passou a investir em centros de dados para oferecer seus programas no formato de serviço - o software roda nos servidores da própria InterSystems e o cliente paga uma espécie de mensalidade, em vez de comprar a licença.

"Com o mercado aquecido, é um grande desafio para as empresas encontrarem locais financeiramente atrativos e que atendam a todos os requisitos de infraestrutura", diz Roveri, da IDC. Entre as exigências técnicas estão a demanda por energia - que varia de 500 megawatts/hora (MWh) a 2 mil MWh por metro quadrado - e uma infraestrutura compatível com geradores, sistema anti-incêndio e refrigeração eficiente.

Outros requisitos que começam a fazer parte dos projetos são o reaproveitamento da água da chuva e a melhoria do sistema de ar-condicionado. Os empreendimentos mais recentes também preveem a redução do espaço ocupado (com a aquisição de servidores mais compactos) e a virtualização de redes, servidores e áreas de armazenamento por meio de programas que multiplicam a capacidade desses equipamentos.

Tudo isso, diz Roveri, exige um investimento pesado, o que fortalece a tendência de terceirização. Em muitas empresas, apenas as áreas essenciais ao negócio continuam sendo administradas em centros de dados próprios.

Diante desse cenário, as empresas estão aprendendo a agir como as companhias especializadas em imóveis. O UOL decidiu implantar novas instalações no centro de São Paulo. Gil Torquato, diretor corporativo da empresa, conta que pesquisou locais em todo o Estado e escolheu a região devido a uma série de condições: proximidade de uma subestação de fornecimento de energia, espaço com capacidade para receber um novo grupo de geradores - a demanda é de um consumo médio de 8 MWh - e farta disponibilidade de provedores de redes, como Net, Intelig e Oi. "A rede oferecerá 60 gigabytes por segundo (Gbps) de conexão. Para manter essa capacidade 24 horas por dia, sete dias por semana, foi preciso procurar muito até encontrar o local que permitisse a instalação da infraestrutura adequada", afirma o executivo.

A previsão é de que o novo prédio seja inaugurado no primeiro trimestre de 2010. Em seu lançamento, o projeto foi orçado em R$ 90 milhões. A estrutura será formada por cinco pisos para o centro de dados e outros dois andares subterrâneos, onde ficarão os geradores. Quando inaugurado, o centro vai abrigar 30 mil servidores e uma capacidade cinco vezes maior do que as instalações atuais da companhia. O projeto faz parte do plano de expansão do serviço de hospedagem do UOL, que em março absorveu a DHC Outsourcing, e, em outubro, adquiriu a carteira de 55 mil clientes da Insite.

O grupo Asamar - com receita anual de R$ 8 bilhões e atuação em áreas que vão da petroquímica à siderurgia - enfrentou menos dificuldades ao apostar na instalação de um centro de dados fora do circuito tradicional. No fim de 2008, a empresa anunciou investimento de US$ 50 milhões (50% financiado pelo Banco do Desenvolvimento de Minas Gerais, BMDG) na criação da Ativas Data Center, uma empresa para prestar serviços na área. O centro de dados será lançado em março de 2010 e vai atender à demanda das empresas do grupo e de outras companhias.

As instalações vão ficar em Belo Horizonte, entre duas estações de geração de energia elétrica da Cemig e numa região provida por várias operadoras de telefonia, diz o presidente da empresa, Alexandre Siffert. A empresa comprou um terreno de 11 mil metros quadrados, que terá na primeira fase 6 mil metros quadrados de área construída. "O espaço permite a construção de mais 30 mil metros quadrados numa expansão futura", afirma o executivo.

Na Alog, a capacidade dos centros instalados no Rio de Janeiro e em São Paulo ainda são capazes de sustentar o crescimento da empresa pelos próximos dois anos, diz Sidney Breyer, presidente da companhia. Uma expansão, porém, já está nos planos. "Nesta semana começamos a olhar opções na Grande São Paulo", diz Breyer. A preferência é por um terreno onde a empresa possa construir um prédio novo. "Você reduz o consumo de energia já no projeto, com o arranjo correto das salas e a instalação do ar-condicionado", explica. Não está descartada, no entanto, a compra de um prédio pronto caso a oportunidade apareça.

A Boxfile, que desenvolve sistemas de infraestrutura e tecnologia da informação para centros de dados, registrou um crescimento de 50% este ano, graças ao avanço de projetos na área. Pascal Toque, sócio e diretor da empresa, associa o crescimento ao aumento recente da demanda, principalmente de bancos e órgãos de governo. "Grandes empresas preferem ter o domínio do gerenciamento do seu centro de dados em vez de confiá-lo a terceiros. A tendência é de que os investimentos na área mantenham um crescimento de 25% pelo menos nos próximos três anos", afirma Toque.

 

Segurança é item central de projetos

 

O processo de terceirização dos centros de dados é cada vez mais intenso, mas isso não impede que um grupo de usuários - principalmente instituições financeiras, órgãos de governo e grandes companhias prefiram manter o controle absoluto do processamento de suas informações e, por isso, estejam construindo seus próprios centros de dados. Como nas instalações terceirizadas, esses projetos precisam seguir exigências de segurança, como a implantação de salas-cofre, e medidas para redução de custos, como o uso de servidores que ocupam menos espaço e a virtualização de parte dos recursos disponíveis.

Com uma carteira de aproximadamente R$ 10 bilhões, a Fundação Sistel de Seguridade Social, sexto maior fundo fechado de previdência privada do país, instalou há um ano um centro de dados de 27 mil metros quadrados, a metade do espaço ocupado pelas instalações anteriores. O sistema de segurança do novo prédio contra com proteção que inclui de terremoto a queda de avião.

De acordo com o gerente de tecnologia da informação da Fundação Sistel, Fernando Haetinger Toigo, foram instalados 63 servidores, dos quais 35 são equipamentos físicos e os outros 28, máquinas virtuais. O centro de dados opera com sistema de refrigeração redundante e a infraestrutura de energia conta com dois nobreaks e grupos de geradores.

A Sistel congrega informações de 19,7 mil aposentados e 6,4 mil pensionistas, opera dez planos de previdência, realiza 800 empréstimos por mês e oferece dois planos assistenciais a 31 mil titulares e 13 mil dependentes. "Não houve aumento da capacidade de processamento de dados, porque já tínhamos feito isso antes. O novo centro de dados foi construído para aumentar a segurança e mitigar riscos", afirma o executivo.

No quesito segurança, a Fundação Sistel optou por nada menos que uma sala-cofre semelhante às do Pentágono, nos Estados Unidos. Trata-se de uma sala fechada por painéis de aço laterais e teto de 10 centímetros de espessura, piso composto por uma camada de aço e uma de material corta-fogo. O material é o mesmo das caixas-pretas de avião - à prova de bala, umidade, terremoto, fogo e explosão. O acesso das pessoas à sala é controlado por exames de biometria. A estrutura foi importada dos Estados Unidos pela Boxfile, que cuidou da infraestrutura do projeto. O custo total foi de R$ 5 milhões.

A segurança também foi um dos aspectos centrais na decisão do Bradesco de implantar um novo centro de dados em Osasco (SP). No início de 2010, o banco planeja concluir a última fase do projeto, com a migração de 1,2 mil servidores que estão espalhados pelo país para a unidade da Cidade de Deus. Desde 2008, já foram transferidos 1,4 mil servidores e mais de 15 mil canais de comunicação de dados para as novas instalações, que ficam em um edifício de 10 mil metros quadrados, erguido sob as regras de sustentabilidade ambiental.

O projeto recebeu investimento de R$ 170 milhões e levou 15 meses para ser concluído, diz o vice-presidente executivo do Bradesco, Laércio Albino Cézar. "Esse centro é capaz de monitorar cerca de 30 mil componentes", afirma o executivo. O banco processa 180 milhões de transações por dia, chegando a 300 milhões em dias de pico. "O novo centro foi feito pensando na expansão que o banco fará e no aumento da proteção contra qualquer tipo de invasão", afirma Cézar. Todo o processamento de dados do Bradesco continua sendo feito pelo banco. Apenas a impressão de extratos e contas é feita por uma empresa terceirizada.

A Petrobras, que inaugura o seu centro de dados no primeiro trimestre de 2010, optou por terceirizar parte do processamento de dados e instalar nas novas instalações apenas as áreas de tecnologia da informação diretamente ligadas ao seu negócio, afirma o gerente de serviços de infraestrutura de tecnologia da informação e comunicações da Petrobras, Antônio Carlos de Faria. O centro, fruto de um investimento de R$ 300 milhões, terá um edifício próprio, de 3,6 mil metros quadrados, que está em construção desde 2008 no Centro de Pesquisas e Desenvolvimento Leopoldo Américo Miguez de Mello (Cenpes), no Rio de Janeiro. "Hoje, cada unidade possui uma estrutura de processamento de dados. Por mais que se faça uma sala com todos os requisitos para um centro de dados, a estrutura não fica perfeita", diz Faria.

O edifício foi projetado de modo utilizar energia gerada por gás natural e aproveitar a energia solar e a água da chuva para suprir parte do consumo de luz e água. "Com esse sistema, teremos uma economia de R$ 1,4 milhão por ano", afirma o executivo. Quando concluído, o centro de dados receberá cerca de 7 mil servidores físicos e virtuais, que controlarão 86 mil unidades de trabalho no Brasil e no exterior. (CB e GB)

 
Fonte: Valor Econômico