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| Carlos Eduardo Kuhl, diretor da InterSystems: poucos prédios suportam uma tonelada por metro quadrado |
Carlos Eduardo Kuhl está pronto para arrumar as malas, mas ainda não tem destino certo. A procura pelo lugar dos seus sonhos já envolveu visitas a dezenas de locais diferentes, sem que nenhum o convencesse até agora. Mas Kuhl não está atrás de um resort exclusivo ou de uma praia deserta. Responsável pelas operações latino-americanas da InterSystems, uma empresa de software, sua dificuldade é encontrar o imóvel adequado para instalar, em São Paulo, o primeiro centro de dados da companhia no Brasil.
"Poucos prédios têm estruturas capazes de suportar uma tonelada por metro quadrado", explica o executivo. A oferta de áreas é tão escassa que a previsão de Kuhl é que a procura vá se estender até março de 2010.
A falta de prédios adequados é reflexo direto da explosão de demanda pelos centros de dados ou "data centers". É esse o nome dados às grandes salas refrigeradas que funcionam como um celeiro de servidores, os computadores de grande porte onde são armazenadas informações e programas de empresas de todos os tamanhos e áreas de atuação.
Uma pesquisa da consultoria IDC mostra que esse mercado, estimado em R$ 13 bilhões anuais, cresceu quase 10% em 2008, com projeção de se expandir dois dígitos ao ano entre este ano e 2013, informa Reinaldo Roveri, gerente de análise de mercado da IDC.
Movimentos recentes mostram como a área está aquecida. Somando apenas quatro projetos de centros de dados em andamento - da Petrobras, do Bradesco, do UOL e da Sistel - o orçamento dedicado a essas instalações chega à cifra de R$ 565 milhões.
O crescente interesse das empresas em investir em centros de dados obedece a duas vertentes básicas: a primeira é atender a necessidades internas. O processo de informatização e o aumento das transações eletrônicas entre as empresas e seus fornecedores ou clientes tornou a construção de mais centros um imperativo, principalmente entre as grandes companhias.
A segunda vertente é a das empresas que estão investindo em centros de dados para oferecer serviços terceirizados: o cliente usa as instalações do fornecedor em vez de construir sua própria infraestrutura. A tendência fica cada vez mais forte com a chamada computação em nuvem. Em vez de armazenar software e arquivos no computador do usuário, tudo fica disponível via internet - a "nuvem" do enunciado.
Um levantamento feito pela IT Data com mil empresas de médio e grande portes revela que 39% delas já terceirizam total ou parcialmente seus centros de dados. Álvaro Leal, consultor da IT Data, diz que existe um enorme potencial de crescimento para esses serviços.
A InterSystems é um exemplo disso. A empresa, que oferece software de banco de dados e sistemas para a área de saúde, passou a investir em centros de dados para oferecer seus programas no formato de serviço - o software roda nos servidores da própria InterSystems e o cliente paga uma espécie de mensalidade, em vez de comprar a licença.
"Com o mercado aquecido, é um grande desafio para as empresas encontrarem locais financeiramente atrativos e que atendam a todos os requisitos de infraestrutura", diz Roveri, da IDC. Entre as exigências técnicas estão a demanda por energia - que varia de 500 megawatts/hora (MWh) a 2 mil MWh por metro quadrado - e uma infraestrutura compatível com geradores, sistema anti-incêndio e refrigeração eficiente.
Outros requisitos que começam a fazer parte dos projetos são o reaproveitamento da água da chuva e a melhoria do sistema de ar-condicionado. Os empreendimentos mais recentes também preveem a redução do espaço ocupado (com a aquisição de servidores mais compactos) e a virtualização de redes, servidores e áreas de armazenamento por meio de programas que multiplicam a capacidade desses equipamentos.
Tudo isso, diz Roveri, exige um investimento pesado, o que fortalece a tendência de terceirização. Em muitas empresas, apenas as áreas essenciais ao negócio continuam sendo administradas em centros de dados próprios.
Diante desse cenário, as empresas estão aprendendo a agir como as companhias especializadas em imóveis. O UOL decidiu implantar novas instalações no centro de São Paulo. Gil Torquato, diretor corporativo da empresa, conta que pesquisou locais em todo o Estado e escolheu a região devido a uma série de condições: proximidade de uma subestação de fornecimento de energia, espaço com capacidade para receber um novo grupo de geradores - a demanda é de um consumo médio de 8 MWh - e farta disponibilidade de provedores de redes, como Net, Intelig e Oi. "A rede oferecerá 60 gigabytes por segundo (Gbps) de conexão. Para manter essa capacidade 24 horas por dia, sete dias por semana, foi preciso procurar muito até encontrar o local que permitisse a instalação da infraestrutura adequada", afirma o executivo.
A previsão é de que o novo prédio seja inaugurado no primeiro trimestre de 2010. Em seu lançamento, o projeto foi orçado em R$ 90 milhões. A estrutura será formada por cinco pisos para o centro de dados e outros dois andares subterrâneos, onde ficarão os geradores. Quando inaugurado, o centro vai abrigar 30 mil servidores e uma capacidade cinco vezes maior do que as instalações atuais da companhia. O projeto faz parte do plano de expansão do serviço de hospedagem do UOL, que em março absorveu a DHC Outsourcing, e, em outubro, adquiriu a carteira de 55 mil clientes da Insite.
O grupo Asamar - com receita anual de R$ 8 bilhões e atuação em áreas que vão da petroquímica à siderurgia - enfrentou menos dificuldades ao apostar na instalação de um centro de dados fora do circuito tradicional. No fim de 2008, a empresa anunciou investimento de US$ 50 milhões (50% financiado pelo Banco do Desenvolvimento de Minas Gerais, BMDG) na criação da Ativas Data Center, uma empresa para prestar serviços na área. O centro de dados será lançado em março de 2010 e vai atender à demanda das empresas do grupo e de outras companhias.
As instalações vão ficar em Belo Horizonte, entre duas estações de geração de energia elétrica da Cemig e numa região provida por várias operadoras de telefonia, diz o presidente da empresa, Alexandre Siffert. A empresa comprou um terreno de 11 mil metros quadrados, que terá na primeira fase 6 mil metros quadrados de área construída. "O espaço permite a construção de mais 30 mil metros quadrados numa expansão futura", afirma o executivo.
Na Alog, a capacidade dos centros instalados no Rio de Janeiro e em São Paulo ainda são capazes de sustentar o crescimento da empresa pelos próximos dois anos, diz Sidney Breyer, presidente da companhia. Uma expansão, porém, já está nos planos. "Nesta semana começamos a olhar opções na Grande São Paulo", diz Breyer. A preferência é por um terreno onde a empresa possa construir um prédio novo. "Você reduz o consumo de energia já no projeto, com o arranjo correto das salas e a instalação do ar-condicionado", explica. Não está descartada, no entanto, a compra de um prédio pronto caso a oportunidade apareça.
A Boxfile, que desenvolve sistemas de infraestrutura e tecnologia da informação para centros de dados, registrou um crescimento de 50% este ano, graças ao avanço de projetos na área. Pascal Toque, sócio e diretor da empresa, associa o crescimento ao aumento recente da demanda, principalmente de bancos e órgãos de governo. "Grandes empresas preferem ter o domínio do gerenciamento do seu centro de dados em vez de confiá-lo a terceiros. A tendência é de que os investimentos na área mantenham um crescimento de 25% pelo menos nos próximos três anos", afirma Toque.