A Telefônica começou a guerra pela GVT antes mesmo que a Vivendi desse o primeiro tiro. Numa iniciativa inesperada, o grupo espanhol elevou ontem sua própria oferta em pouco mais de 5% para R$ 50,50 por ação da GVT, o que representa um investimento total de R$ 6,95 bilhões caso adquira todos os papéis por esse preço, incluindo o plano de opções dos executivos.
Com isso, a disputa que já era considerada cara foi para o campo do imponderável. O que está em jogo não é mais a empresa espelho com 247 mil linhas telefônicas em serviço e 604 mil clientes de banda larga. De um lado, é preciso saber quanto vale para a Telefônica evitar a entrada de um terceiro competidor forte. Do outro, quanto a Vivendi está disposta a desembolsar para entrar no Brasil.
Esses são valores que as planilhas dos analistas não conseguem calcular. Por isso os profissionais de investimento, em geral, não arriscam recomendações de compra ou venda para a ação. De acordo com dados da agência Bloomberg, a média dos preços-alvo de dez entre 18 analistas que acompanham a empresa é de R$ 45,50. Ou seja, avaliam a companhia em, no máximo, R$ 5,8 bilhões - R$ 6,3 bilhões considerando os planos de opções. Esse valor já havia sido ultrapassado com a primeira proposta da Telefônica, de R$ 48 por ação - já 14,3% superior aos R$ 42 que a Vivendi pretendia oferecer ao mercado.
Nenhuma das companhias quis comentar o assunto. Segredo, mais do que nunca, será a alma desse negócio. O movimento da Telefônica foi recebido como um sinal de que a disposição é grande para evitar um novo concorrente. O argumento foram os bons resultados da GVT no terceiro trimestre. A receita líquida foi de R$ 442,4 milhões, crescimento de 27%, e lucro líquido de R$ 57,2 milhões.
Até agora, não havia sequer certeza se a Vivendi faria uma réplica sobre os R$ 48.
A vantagem dos espanhóis sobre a Vivendi são sinergias que podem ser obtidas com a combinação dos negócios, avaliadas em cerca de R$ 900 milhões por analistas. O grupo francês não tem ativos de telefonia no Brasil.
No mercado, os investidores mantêm firme a aposta de que a Vivendi fará uma nova proposta. As ações encerram o dia ontem a R$ 51,65, com alta de 1,27%, mantendo-se acima da oferta renovada da Telefônica. Pessoas próximas ao grupo francês, contudo, já tinham comentado que não havia interesse em iniciar uma guerra de preços. A Vivendi estaria preocupada em manter sua nota de risco de crédito e ainda os dividendos aos investidores. E é por isso que a Telefônica colocou ainda mais pressão sobre a concorrente.
A briga entre os grupos europeus elevou os múltiplos da GVT para números fora do racional do setor. A relação entre o valor da companhia e lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização projetado para 2010 está perto de 9 vezes, enquanto que nas demais empresas do setor esse múltiplo não passa de 4 vezes. A relação entre o valor de mercado e o patrimônio líquido da da GVT passou de 1,8 vez para 3,3 do fim de 2008 até ontem.
O grupo francês tem alguns desafios a enfrentar caso queira manter-se na disputa, embora esteja com a vantagem de conhecer a estratégia de sua rival. O melhor a fazer seria o elemento surpresa. Aliás, foi justamente isso que a Telefônica tentou evitar ao ampliar sua própria proposta.
Pelas regras da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a Vivendi agora teria que pagar, no mínimo, R$ 53,02 por ação da GVT para permanecer na briga. E, embora os analistas preferiam não bancar essa análise, a maioria acredita que a Telefônica terminará pagando mais e vencendo a briga. No grupo espanhol, o clima de "já ganhou" continua prevalecendo. A empresa não conta nem com uma negativa do regulador do setor, a Anatel, mesmo depois de ter enfrentado um momento delicado com os problemas do serviço de banda larga Speedy.
Caso não possa contar com as preocupações da Anatel em estimular a concorrência e vetar a compra pela Telefônica, o sucesso da Vivendi depende apenas de preço, já que 70% das ações da GVT estão no mercado.
Pelas regras da CVM, a Vivendi tem duas formas de ficar na briga. A primeira é lançando uma oferta concorrente, com um edital próprio. Nesse caso, o intervalo mínimo para o leilão seria de 30 dias. A regulação prevê que, neste cenário, a autarquia adie o leilão da ofertante inicial - o da Telefônica está marcado para 19 de novembro - e deixe ambos para a mesma data. Contudo, essa regra, de 2002, nunca foi testada no mercado brasileiro, já que a situação é inédita.
A outra possibilidade é a Vivendi interferir no leilão da Telefônica, oferecendo na hora um preço maior. Essa é a única forma de limitar o tempo de reação da Telefônica. O risco é não conseguir garantir um mínimo de 51% das ações da GVT e, portanto, o controle.
Para mitigar esse risco, a companhia poderia, contudo, já comprar ações no mercado. Pode montar uma posição até 14,99%, inferior à pílula de veneno da GVT. Além disso, pode brigar pelo exercício do contrato firmado em setembro com a administração para comprar 20% do capital. Com quase 35% dos papéis, precisaria obter apenas 16% no mercado, interferindo na iniciativa da Telefônica. Na bolsa, já correm rumores de que a Vivendi estaria comprando ações. O grupo espanhol já comprou. Contudo, até o momento, ainda mantém posição inferior a 5%. A CVM obriga a abertura dos nomes daqueles que alcançam esse percentual e nenhuma das duas informou nada até o momento.