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Chegou a hora de trocar de
computador
Equipamentos do "Bug do Milênio" já estão superados por Rosana Hessel
Os fabricantes de computadores pessoais (PCs) percebem sinais nítidos da recuperação da economia alardeada pelo governo brasileiro e comemoram a retomada do crescimento nas vendas de 2004. Na opinião dos executivos das principais marcas do mercado, esse aquecimento é resultado da retomada dos investimentos para a renovação do parque de microcomputadores, principalmente pelas grandes e médias empresas. A última forte onda de compras de PCs aconteceu em 1999 e foi percebida em 2000, quando a maioria das empresas se preparava contra o "Bug do Milênio". O "bug" - ou apagão de dados, como se temia - não aconteceu porque as empresas se empenharam para evitá-lo, dizem os fabricantes. Agora, quando o ciclo de vida dos equipamentos se estendeu muito além dos três anos de prazo médio de garantia, as empresas optam por renovar pelo menos uma parte dos seus equipamentos como forma de minimizar os gastos com manutenção das máquinas e atualizações.
Com isso, as previsões de institutos de pesquisa, como o IDC Brasil inclusive, já foram revistas para cima. "O crescimento esperado, que era de apenas um dígito, passou para dois", informa o analista de mercado do IDC Brasil, Denis Gaia, sem revelar os percentuais de aumento. Mas, de acordo com os fabricantes, a expectativa é de um crescimento neste ano entre 11% e 15% para os PCs e os notebooks, respectivamente.
Aliás, para os fabricantes, as vendas devem crescer acima dessa média prevista para o mercado. No primeiro semestre, as vendas da Semp Toshiba Informática, por exemplo, saltaram 39% e, no terceiro trimestre que está sendo fechado nesta semana, esse porcentual está se mantendo, informa o diretor de vendas corporativas da empresa, Carlos Duarte.
Para o gerente de produtos da Dell no Brasil, Ricardo Shiroma, o ano de 2004 está sendo bem melhor do que 2003. "Estamos prevendo melhor desempenho neste ano, e inclusive as exportações foram ampliadas", diz ele, sem revelar números. Entre 1999 e 2000, o mercado de PCs chegou a crescer quase 40%, totalizando 3,058 milhões de unidades de desktops (micros de mesa) e notebooks (computadores portáteis). No ano seguinte, em 2001, atingiu o pico de 3,31 milhões. O ritmo de crescimento foi interrompido em 2002, quando o mercado doméstico caiu 8%, para 3,052 milhões. E, no ano passado, o segmento manteve-se praticamente estável (com apenas uma variação positiva de 0,43%), fechando em 3,065 milhões em 2003. Garcia, no entanto, não faz projeções futuras, apesar de concordar que o cenário é de recuperação nas vendas. Segundo ele, a base atual é de 15 milhões de PCs. Já as estimativas de outro instituto de pesquisas norte-americano, o Gartner, são bastante otimistas para os próximos anos. A média de crescimento no mercado é de 25,5% neste ano, e a previsão é de que até 2008 o mercado doméstico atinja a marca de 8,5 milhões de unidades. Na realidade, os números do Gartner, que prevê a venda de 4,98 milhões de unidades no País em 2004, estão muito acima dos projetados pelo IDC. "Essas previsões estão muito otimistas e acho pouco provável que ocorram dessa forma", comenta Cristina Palmaka, vice-presidente do grupo sistemas pessoais da HP Brasil.
Apesar das divergências nas previsões dos institutos de pesquisas, há consenso em um ponto: os números apontam que a venda de notebooks crescem bem acima da média de desktops. Entretanto, a base de laptops ainda é muito pequena, correspondendo a apenas 5% do mercado total de PCs. Esse percentual é muito superior no Japão, Estados Unidos e Europa e supera o Brasil também na Argentina e Chile, conforme dados do IDC. O mercado brasileiro de PCs é predominantemente de desktops, cujo percentual gira em torno de 95% do total. Em países como o Japão, a participação dos notebooks no mercado de PCs é de 53% e supera a de desktops. Nos Estados Unidos, esse percentual é de 24,9%. E, na Europa, 14,8%. Na América Latina, os notebooks superam a média brasileira e correspondem a 8% da base do segmento de PCs.
O fato é que no Brasil há poucos fabricantes de peso competindo pelas vendas domésticas, onde se encontra o chamado "consumidor final". Nesse segmento, menos de 30% são disputados pelos computadores de marca. O grande volume pertence ao chamado mercado cinza, composto por pequenos integradores, que montam de 2 a 3 e até 100 a 200 micros por mês com peças de origem nem sempre comprovadas. Há cerca de 13,5 mil deles em atividade no País. Esse mercado cinza corresponde atualmente a 72% e vem crescendo. Há cinco anos, correspondia a 59%, lembra Gaia. "Hoje em dia competimos com o mercado cinza e não com outros fabricantes", conta Cristina, da HP Brasil. "A carga tributária do Custo Brasil é pesada e não dá competitividade à indústria formal, não somente por causa dos volumes, mas também pelos custos dos componentes importados", lembra a executiva. De acordo com ela, o peso da carga tributária gira entre 30% e 40% para os PCs e a Lei de Informática minimiza muito pouco esse impacto. "Esse percentual corresponde hoje a praticamente a diferença de preço entre um computador do mercado formal e o do mercado cinza", compara. "A Lei de Informática não é suficiente para dar competitividade para a indústria. Ela reduz o custo da importação de componentes, mas não o suficiente para tornar o produto competitivo no mercado interno", acrescenta. Essa opinião é compartilhada por Duarte, da Toshiba, e Shiroma, da Dell. "O grande problema é o mercado cinza, que toma quase 3/4 das vendas domésticas e, com isso, deixa muito pouco para os fabricantes que pagam impostos competirem entre si", diz Duarte. Para competir nesse mercado, a To-shiba criou uma marca de combate, a Lince, cujos preços dos desktops partem de R$ 1,9 mil e atualmente a família conta até com notebooks.
Para o final deste ano, a Toshiba prepara o lançamento da marca STI, que será integrada por equipamentos de alta performance voltados para o consumidor final e o mercado corporativo, revela Duarte. Os novos computadores serão fabricados no País como uma categoria premium. O que mais se vê, no entanto, é uma verdadeira dança das cadeiras nesse mercado e até mesmo a saída dos grandes. Primeiro foi a IBM, depois a HP, que comprou a Compaq e se retirou do mercado doméstico em 2002. Recentemente, foi a vez da nacional Itautec, que também resolveu se concentrar somente no mercado corporativo, muito mais rentável do que o doméstico. "A saída da Itautec sinaliza essa dificuldade no mercado formal, de competir com quem não paga impostos", diz Cristina. Segundo ela, a HP está analisando a volta para o mercado consumidor. Para isso, a companhia está trabalhando junto ao governo para redução dos impostos. "Nosso retorno está atrelado a isso. Temos feito algumas negociações de forma a beneficiar não somente a HP, mas toda a indústria", afirma. Na opinião de Cristina, o mercado brasileiro é bastante maduro no segmento corporativo, especialmente nas grandes empresas. "Algumas estão fazendo atualizações de máquinas de 2000. Depois disso, por várias questões econômicas elas deixaram de investir em atualização tecnológica", diz ela, acrescentando que a aposta da HP é consolidar a presença nas pequenas e médias empresas. "Esse segmento sempre foi informal, e para sobreviver, se profissionalizou, e deve investir mais em tecnologia." Como forma de atingir o mercado de pequenas e médias empresas - conhecido como SMB (Small and Medium Business) -, Cristina relata que a HP busca ajuda no leasing, viabilizado por meio de parcerias com instituições financeiras. O preço, que tanto incomoda o fluxo de negócios no mercado brasileiro, tem outro perfil para os consumidores globais. No mercado de PCs dos EUA e Japão, por exemplo, há uma grande diferença entre o que se paga por um notebook e um desktop - só que de maneira oposta à dos brasileiros. Lá, o notebook é mais barato e, com isso, vende mais. No Brasil, o custo de um notebook chega a ser mais do que o dobro de um desktop, e, com isso, por aqui há menos equipamentos desse tipo em comparação até mesmo com os países vizinhos, como Argentina e Chile. "O preço depende da escala. Em um mercado de 150 mil unidades por ano, a base ainda é muito pequena e não dá para os notebooks competirem com os desktops", lembra Flávio Haddad, da IBM.
Por outro lado, a necessidade de mobilidade e a ausência do mercado cinza desse equipamento fazem com que os fabricantes instalados no Brasil concentrem suas forças de venda dos notebooks tanto para os consumidores pessoa física quanto jurídica. Como nem tudo são flores, existe ainda a dura competição com o contrabando. A HP, por exemplo, vem comemorando altos índices de crescimento na venda de notebooks. Em 2003, registrou um salto de 42% nos volumes comercializados e a expectativa é manter o ritmo neste ano. A IBM vem recuperando posições no mercado desde a retomada da fabricação local no Brasil, no final de 2003. No segundo trimestre, conquistou 10% do mercado, ficando à frente da Dell. Em 2003, a IBM tinha apenas 7,8%. Segundo Haddad, a expectativa da empresa é de manter os 10% de market share até o final do ano. Com quatro modelos à venda no mercado doméstico, a IBM produz três deles localmente, na fábrica da Solectron. O modelo mais barato parte de R$ 4,9 mil e pode chegar até R$ 9 mil. A liderança do segmento, no entanto, está com a Toshiba, calcada em importações, conforme reconhece Duarte. Pelos dados do IDC Brasil, os importados abocanham 50% do mercado de notebooks. "Trata-se de um percentual muito elevado e grande parte desse volume ainda entra no País de forma irregular", lembra Denis Gaia. A partir desses dados, a HP reivindica a liderança do mercado, com 30% de participação, considerando somente os notebooks nacionais. No Brasil, a IBM e a HP vendem desktops apenas para o mercado corporativo. Entretanto, no segmento de notebooks, o consumidor representa 20% das vendas da primeira e 30% das vendas da segunda. A Dell não abre seus números, apesar de ser a líder mundial de PCs no primeiro semestre do ano, conforme dados do Gartner. A Dell ficou com 16,5% do mercado global, comercializando 7 milhões de unidades, revela o instituto. A HP ficou em segundo lugar, com 14,3%, enquanto a IBM saboreou 5,9% do bolo total de 42,8 milhões de unidades. Para manter seu bom desempenho no mercado de notebooks, a IBM segue o ritmo de lançamento da linha ThinkPad pela matriz. O seu recém- lançado X40 ultraportátil, no entanto, não é fabricado localmente. Já a HP lançará dez modelos básicos que poderão ser modificados, de acordo com a necessidade do cliente. "Cerca de 70% deles possuem recursos integrados de rede sem fio. A aposta é na integração do notebook com telefones com tecnologia GSM (Global System for Mobile Communication) de 3ª geração. A HP investe nisso como tendência para buscar a conectividade no hardware", assegura Cristina. |